quinta-feira, 31 de maio de 2007

03 - O JANTAR NA CASA DE HERALDO E OLAVO

texto: Gravata
colaboração: Naaaaaada


PARTE I
Patty segura o interfone. Acabou de receber uma inequívoca cantada de Marcão. Bia, que desconhece o teor da conversa, continua perguntando:

BIA
- É o Marcão?

PATTY (falando ao interfone)
- Marcão, você está bêbado. Amanhã conversamos!

Desliga o telefone e fica atônita. Bia continua perguntando.

BIA
- O que ele quer? Que cara é essa? O que houve???

PATTY
- Ele queria puxar conversa chata. Eu hein...

BIA
- Patrícia! O que o Marcão queria???

PATTY
- Ai...

BIA
- Diga!

PATTY
- Ele disse que me quer e blablabla. Sabe do jeito que eu quase falei com o Pedro?

BIA
- Nossa! E agora? Ele não é feio...

PATTY
- E é amigão do Pedro. O melhor amigo. Ou seja: chance zero de ficar com o Pedro agora. Afinal, ele não vai furar o olho do amigo...

BIA
- É, homem tem disso. Aliás, nós mulheres também deveríamos "ter disso". Nós competimos feito umas retardadas, enquanto eles são civilizadíssimos.

PATTY
- Mais ou menos, né?

BIA
- A maioria respeita.

PATTY
- E o que eu faço agora, com esse cara na minha cola?

BIA
- Sem chance tentar ficar com ele?

PATTY
- Mas eu gosto do Pedro...

BIA
- Ah, gosta nada! Você acha o Pedro bonitinho. E só. O Marcão também é bonitinho. Meio infantil, é verdade, mas é um bom sujeito.

PATTY
- Eu realmente não sei o que fazer...

BIA
- Se você realmente quer tentar algo com o pedro - e eu acho isso uma burrada, é bom que isso fique registrado - o único jeito é asfastar o Marcão.

PATTY
- E como faço isso?

BIA
- Ah, inventa uma mentira. Algo bem repugnante, que faça com que ele desista de você. Pense no que existe de mais sujo e repugnante.

PATTY
- Eca!

BIA
- Já pensou?

PATTY
- Já, mas...

BIA
- Então ponha o plano em prática! Assim que ele ligar, porque ele VAI ligar novamente, você solta seu "defeito imperdoável". Pronto. Ele se afasta.

PATTY
- Tá, tá...

Bia se despede de Patty e vai para sua casa, onde encontra Pedro roncando no sofá, com uma revista de pesca em cima do rosto e o controle da TV sobre a barriga.

BIA
- Vai pra cama, Pedro!

PEDRO
- Quê?

BIA
- Vai dormir na cama, pô! Tá roncando na sala!

PEDRO
- Oficialmente, minha cama é aquela lá do meu quarto, mas em termos estatísticos posso dizer que esta daqui que é minha cama.

BIA
- Vai logo. Não quero saber desse sofá babado.

PEDRO
- Tarde demais. Boa noite, Bia.

Bia vai para o quarto puta da vida, mas sabe que nem com um macaco hidráulico ou um pé-de-cabra ela tira o Pedro de lá.


* * *

Dia seguinte, hora do almoço. Bia voltou do escritório e encontra Pedro dormindo no sofá.

BIA
- Você não acordou desde aquela hora?

PEDRO
- Acordei.

BIA
- E o que fez?

PEDRO
- Voltei a dormir.

BIA
- Arre... Não sei onde você arruma dinheiro.

PEDRO
- Nem eu. Até porque preciso pagar o Heraldo...

BIA
- Tenho um plano. Não sei se vai achar arrojado, mas enfim...

PEDRO
- Diga!

BIA (ironicamente confabulando)
- Que tal se você arrumasse um emprego?

PEDRO
- Ih... Que papo, hein? A gente divide as despesas da casa. Quando faltar grana para isso, aí você reclama.

BIA
- Certo, certo...

Toca o telefone e Bia atende.

BIA
- Alô...

(...)

BIA
- Oi, Heraldo!

Pedro começa a gesticular e fazer mímicas dizendo "Fala que eu não estou! Fala que eu não estou!".

BIA
- Quer falar com o Pedro?

(...)

BIA
- Ah, é? Ele vai gostar de saber disso... Embora ele não mereça.

(...)

BIA
- Como? Uau! Hoje?

(...)

BIA
- Nós dois?

(...)

BIA
- Sim, entendo... Refeições para pouca gente são sempre as melhores.

(...)

BIA
- Quero só ver se o Olavo é tudo isso na cozinha! Levarei um vinho, ok?

(...)

BIA
- Tá, tá... Eu chamo ele... Pode deixar.

Ela desliga.

PEDRO
- Caralho, Bia! Putamerda! Você tinha que falar de mim na primeira oportunidade! Eu tô aqui pulando tentando dizer "fala que eu não tô!" e você fala de cara!

BIA
- Eu achei que você estivesse fazendo uma performance, um happening, uma flash mob... Desculpe.

PEDRO
- Raitifudê. Ele falou até que horas eu devo pagar?

BIA
- Que porra é essa? Acha que tá em filme B, naquelas de "dívida de jogo se paga em 24 horas"?

PEDRO
- Claro que se paga em 24 horas!

BIA
- Nada. Ele falou para você não ligar, que ele não quer dinheiro, jogou por diversão.

PEDRO
- Ufa!

BIA
- E ainda me convidou para um jantar feito pelo Olavo!

PEDRO
- Só você vai? E eu?

BIA
- Infelizmente, você também vai. É nove da noite.

PEDRO
- Certo. Vamo nessa!

* * *

PARTE II
Pedro e Bia estão na porta do apartamento de Olavo e Heraldo. Tocam a campainha e...

HERALDO (abrindo a porta)
- Sejam bem vindos!

O apartamento é decorado com excelentes móveis, todos muito finos e, como diria Pedro...

PEDRO
- Caraia! Aqui é tudo cheio dos design, hein?

BIA
- Acreditem, isso foi um elogio! Trouxe esse vinho!

OLAVO
- Muito obrigado pelo vinho. Vamos abrir já! Ah, e temos o maior prazer em decorar nossa casinha!

HERALDO
- O Olavo é viciado nisso dos móveis. Confesso que sou meio relapso.

BIA
- Duvido!

PEDRO
- Começou o papo de mulherzinha...

BIA
- Pedro!

OLAVO
- Hahahaha! Mas ele tem razão! Vamos deixar essa conversa de lado! Olha, preparei algo especial para vocês...

HERALDO (interrompendo, eufórico)
- Ele adora a culinária francesa!

OLAVO
- Deixa que eu conto!

HERALDO
- Hunft...

OLAVO (dando um beijinho em HERALDO e continuando)
- Pois bem... Preparei algo muito especial! Tenho certeza de que vão adorar! Por isso que não chamei muita gente, afinal, não dá certo esse tipo de cardápio com tanta gentarada e...

BLIM BLOM!

PEDRO
- Que legal! Eles têm uma campainha de "blim blom"! A nossa é super chata, de "béééééé!".

OLAVO
- Um minuto, vou ver quem é... Deve ser gente do vizinho, eles sempre se confundem.

Ao abrir a porta, Patty pula para dentro do apartamento, com um tupperware nas mãos.

PATTY
Oiê!

OLAVO e HERALDO (sem esconder o embaraço)
- Oi, Patty! Entra, entra...

BIA (cochichando para PEDRO)
- Isso é coisa sua, né?

PEDRO
- Hein?

PATTY
- Ah, liguei à tarde pra casa da Bia, o Pedro me falou do jantar! Que legal! Fiquei muito feliz! Trouxe essa salada de batata com maionese! Eu que fiz!

OLAVO (murmurando)
- Salada de batata? Maionese???

HERALDO (encobrindo o murmúrio do marido)
- Que delícia! Muito gentil, Patty!

PATTY
Mas esqueci a bebida...

BIA (para PEDRO)
- Você é mesmo um primor.

PEDRO
- Como assim? O jantar era secreto?

PATTY
- Como?

HERALDO (mais uma vez salvando a pátria)
- Esses dois só brigam, né? Eu mesmo falei para o Pedro: chama a Patty!

PEDRO
- Pois é, pois é...

BIA (no ouvido de PEDRO)
- Não pensa que eu não sei da verdade, seu bocó.

OLAVO
- Bom, eu estava falando que hoje teremos...

BLIM-BLOM!

BIA (ainda no ouvido de PEDRO)
- Espero que agora seja MESMO engano...

PEDRO
- Xi...

Olavo vai até a porta e dessa vez é Marcão que aparece, quase caindo, sem conseguir equilibrar direito duas sacolas de supermercado e um engradado de cerveja.

MARCÃO
- Eita, ferro! A cerveja tá quase gelada. Se você tiverem gelo aí, dá pra fazer uma gambiarra no tanque! Trouxe salaminho, copa, mussarela de bolinha...

PEDRO
- Ô, maravilha!

OLAVO (sem esconder a decepção)
- Põe maravilha nisso! Trouxe também ovo colorido, Marcos?

MARCÃO
- Porra! Esqueci!

HERALDO (tentando colocar ordem na coisa)
- É sempre bom ter muita gente em casa. Confesso que, de início, pensei em algo mais frugal, menos festivo... Mas adorei a idéia da cerveja com, hm, "frios".

MARCÃO
- Sabia que iam gostar! Toca aqui, Heraldão!

HERALDO (bem sem jeito, cumprimentando MARCÃO, um dando aquele soquinho idiota na mão do outro)
- Grande Marcos!

OLAVO
- Olha, vou deixar pra lá o cardápio mais afrescalhado. Vamos tomar cerveja, certo? E, enquanto elas não gelam, vou buscar uma vodka.

BIA
- Já vi que a coisa vai longe.

PEDRO
- Eu gostei da idéia.

MARCÃO
- Aê!

Olavo busca a vodka, eles bebem e se descontraem. Em uns quarenta minutos, já estão todos bem alegrinhos. Marcão acha então que é hora de abrir seu coração.

MARCÃO
- Ah, queria falar uma coisa pra todos vocês! Eu sou apaixonado por uma mulher aqui desta sala!

BIA
- Viximaria...

Pedro se surpreende, Olavo e Heraldo acham um pouco cafona. Patty procura um buraco para se jogar.

MARCÃO
- Eu sou apaixonado pela Patty!

BIA (no ouvido de PATTY)
- Ou você solta aquele seu defeito tenebroso agora, ou cale-se para sempre...

PATTY
- Marcão... Olha... Eu acho que você não vai gostar de mim.

TODOS (até BIA, para não dar na pinta)
- Aaahhh! Por quê? Como assim? Não, não! Explica isso! Ih... Fala! Fala!

MARCÃO
- Ah... Mas o que seria isso?

PATTY
- Eu gosto de mulheres!

MARCÃO (com os olhos brilhando)
- Quer casar comigo?

Todos os demais permanecem assustadíssimos.

* * *

PARTE III

Patty não sabe mais o que falar. Todos começam a bombardeá-la com perguntas.

PEDRO
- E como surgiu isso?

HERALDO
- É mesmo, Patty? Que surpresa! Você tem namorada, pensa em algo sério com alguma garota, ou quer mesmo é curtir?

OLAVO
- Ah, adorei!

BIA
- De fato, você realmente sabe falar a coisa certa na hora certa. Notou que causou EXATAMENTE o efeito que você queria, né?

PATTY
- Ai, gente... Nem sei como falar disso. Por favor...

MARCÃO
- Olha, Patty. Eu respeito, viu? Mas isso só me fez te achar ainda mais interessante. Na boa...

BIA (tentando fazer a linha do politicamente correto)
- Marcão! Que machismo idiota! Quer dizer que uma mulher não pode ser lésbica e se satisfazer só com outra moça? É preciso que haja o pau? Bobagem a sua!

PATTY
- Ah, Bia... Mas um pau é bom, né?

BIA (irritada com as burradas da amiga)
- De fato, você não sabe mesmo se ajudar. Eu lavo minhas mãos.

PEDRO
- A coisa esquentou!

OLAVO
- E eu não tenho aresta a reparar no que diz respeito à última frase da Patty!

HERALDO
- Digo o mesmo.

PEDRO
- Em termos conceituais, pura e tão-somente teóricos, também apóio a iniciativa. Mas me mantenho bravamente deste lado da trincheira.

BIA
- Tem mais cerveja aí?

PATTY
- E se a gente mudasse de assunto!

PEDRO
- Impossível. Você pode falar de infinitos assuntos numa roda como essa. Infinitos! Mas, se começa a falar de sexo, aí esquece. Não dá para simplesmente mudar. Uns até tentam, mas não dá.

OLAVO
- Olha, não sou nenhum ogro, mas o Pedro tem razão.

PEDRO (rindo, sem levar como ofensa)
- Porra, e eu sou ogro?

BIA
- Não, Pedro. Você é um Ork, Troll, Yetti ou Sasquatch.

MARCÃO
- O que é Yetti?

BIA
- Marcão, façavor, né?

MARCÃO
- Poxa, a Bia é brava...

PATTY
- O que querem saber da minha vida sexual? Não é tão emocionante assim.

PEDRO
- Bom, sei lá... Você disse que gosta de mulher e não dispensa um pau. Suponho que umas duas ou três histórias você tenha pra nos contar, não?

MARCÃO
- Ei, gente... Vamos deixar a Patty em paz, pô. Ela tá constrangida. Se quiserem, eu falo das minhas experiênicas.

BIA
- Isso! Assim o assunto acaba em cinco minutos.

MARCÃO
- Falou "a experiente".

PEDRO
- Mais encalhada do que Corcel I numa estrada de lama em dia de chuva.

BIA
- Pedro, vai tomar no cu, ok?

PEDRO
- Mais encalhada do que uma retro-escavadeira na areia movediça.

BIA
- Pedro, pega na minha e balança.

PEDRO
- Encalhada e chique. Educada na Suíça.

Bia apenas faz o famigerado sinalzinho do dedo.

HERALDO
- Mas por que encalhada, Bia? Você é tão bonita...

MARCÃO
- Há controvérsias...

BIA
- Em primeiro lugar: Marcão, vai se foder você também. Vai jogar conversa na Patty, que é do seu naipe. E eu não sou encalhada. Sou SELETIVA. A mulherada, hoje, se joga no primeiro que aparece.

PEDRO
- Verdade, você nunca foi disso. Mas seria bom aparecer pelo menos um "primeiro" pra gente saber se você se joga ou não, né?

Gargalhadas gerais.

BIA
- O Pedro acha que é o Fodão porque come três mulheres por semana.

MARCÃO
- E o que é ser fodão? Ter uma coleção completa dos filmes do Woody Allen?

PEDRO
- Ih, vamos deixar isso de lado... O tema aqui é Patty, Bia, Marcão. Eu tô fora hoje, certo?

BIA
- Viu só? Chega na vez dele ir pra fogueira e foge da raia!

PATTY
- Eu não sou lésbica.

TODOS (menos a BIA)
- Como?

PATTY
- Eu gosto de pau.

Todos riem.

HERALDO
- Relaxa, Patty! Ninguém vai te julgar mal. Você é "bi". Acontece, ué. Muita gente é bi.

PATTY
- Não, não! É sério!

OLAVO
- Não liga pra eles, Patty! A gente gosta de você assim mesmo!

PATTY
- Ai, meu Deus... O que eu fui fazer...

PEDRO
- Foi bom, Patty. Você falou, desabafou, colocou pra fora. Agora tudo fica mais fácil.

MARCÃO
- E eu confesso que prefiro assim, viu?

PATTY
- ...

Bia cai na gargalhada.

PEDRO
- Antes que vocês voltem a falar da minha vida, por favor, gostaria de sabre QUE RAIO DE PRATO O OLAVO PREPAROU!

BIA
- Porra! Verdade! O que você fez, Olavo? Você ameaçou falar e acabou não dizendo nada.

OLAVO
- Foi chegando gente, né? E aí...

HERALDO (interrompendo)
- Eu falo! Eu falo!

OLAVO (bravo)
- Não! Eu falo!

HERALDO
- Tá, tá, tá...

OLAVO
- Eu gosto da culinária francesa? Então nada melhor do que...

BLIM-BLOM!

BIA
- Pedro, pelo amor de Jesus, Maria, José e todos os carneiros do presépio! Só faltava você ter...

Bia nem termina a frase e Letícia entra na sala. Ela e um negão de quase dois metros de altura, que veste um terno cinza muito bem cortado e uma camisa cor-de-rosa com o primeiro botão aberto.

LETÍCIA
- Cheguei! E este é meu amigo, o Walter. Mas podem chamá-lo de Mr. W!

MARCÃO e PEDRO
- ...

BIA, PATTY, HERALDO E OLAVO
- Nossamãe!!!



CONTINUA...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

02 - A NOITE DA SINUCA

Escrito por Gravata
Com colaboração de Juliana Lobo


PARTE I

Pedro
- Gente, essa é a Letícia!

Letícia (caminhando em direção a todos, e beijando um a um)
- Prazer, Letícia! Prazer, Letícia! Oi, Marcão!

Bia, Patty e Marcão (cada qual em sua vez)
- Prazer, Bia! Prazer, Patty! Oi, Lelé!

Bia
- Lelé? Geralmente Letícia é chamada de Lê ou, sei lá, Lelê...

Letícia (sentando-se num dos sofás, ao lado do Pedro)
- O apelido não tem taaaanto assim a ver com o nome...

Pedro (cortando)
- Lelé, deixa pra lá. A história é longa, né?

Bia (sarcástica)
- Adoooooro histórias longas, sabia?

Patty (um pouco triste, mas muito curiosa)
- Eu também!

Marcão (querendo se enturmar)
- Gostar, eu também gosto, mas é que essa eu já conheço.

Letícia
- Ah, não tem nada demais. Eu conto numa boa. É que sou piradinha, sabe? Quer dizer, eu me acho normal, mas eles me acham doida, então o apelido que era Lê ficou sendo Lelé.

Bia
- Ah, normal... Quem não tem seus momentos de loucura?

Letícia
- Exatamente! E vão dizer que sou Lelé só porque transei com quatro caras na mesma noite, ao mesmo tempo?

Bia (sarcastiquinha)
- Eu gostaria de retirar da Ata aquela parte em que eu disse "Ah, normal..."

Patty (estarrecida)
- Quatro? Mas... Mas... De uma vez?

Pedro e Marcos, como conhecem a história, não escondem o tédio.

Pedro
- Pronto! Conseguiram... Agora a Lelé vai contar toooooodas as histórias. É papo para mais de mês.

Letícia
- Ih, que ciumento! Eu por acaso ligo para os seus casinhos? Eu pergunto do seu passado ou do seu futuro? Que nada! Temos mais é que nos divertir...

Bia (estimulando Letícia a contar tudo)
- Isso, isso mesmo... Então conta, Lelé! Conta aí...

Letícia
- Não que eu seja contra, mas nunca deu certo de ir para uma casa de swing. Mas, ao mesmo tempo, sempre tive essa tara de transar com dois, três, sabe?

Bia (irônica)
- Mas é claro que sei...

Pedro e Marcão se olham, com cara de "isso com certeza vai dar merda".

Letícia
- Então levei uns amigos lá pra casa, sabe?, gente de cabeça bem aberta. E rolou naturalmente... Tudo fluiu numa boa. Eu e os quatro.

Marcão
- Se eu fizer uma pergunta técnica vocês vão me achar inconveniente?

Bia
- Eu tenho certeza de que essa pergunta não mudará meu julgamento quanto a isso.

Letícia
- Ei, claro! Pode perguntar...

Marcão
- Porque é o seguinte... Bom... São quatro, né? Eu estou aqui fazendo as contas, e encontro funções objetivas para três. E o outro?

Letícia (rindo)
- Ah, Marcão! Claro que não daria para ser tudo de uma vez, né?

Pedro
- Intervenção técnica: atrizes pornôs do leste europeu seguramente discordariam dessa sua certeza toda, mas prossiga...

Letícia (ainda rindo)
- Era um pouco com um, um pouco com outro, depois dois de uma vez... Até três eu consegui, claro. Mas eles se revezavam. Foi bem legal...

Patty
- Ai... Posso eu agora perguntar?

Letícia
- Claro que pode!

Pedro
- Tudo que a Lelé mais gosta é de platéia para seus relatos...

Letícia (fazendo careta para Pedro)
- Diga, Patty...

Patty
- E eles? Ficavam mais paradões ou interagiam entre si?

Letícia
- Ah, menina... Bem que eu adoraria ver um brincando com o outro. Mas nada disso. Nem se encostavam. Ainda existe muito machismo nas surubas, viu?

Bia
- Taí uma estatística à qual nem todos têm acesso!

Pedro
- Nem vem, Bia! Você dá uma de moderna, coisa e tal, mas quando alguém aparece com uma história realmente da pesada, aí você fica toda cheia da ironia... Sempre foi assim!

Bia
- Como "sempre fui assim"? Você me viu há pelo menos 15 anos e foi ver hoje novamente!

Pedro
- Você ficou quinze anos sem agir dessa forma? Ou de lá pra cá nada mudou?

Bia
- ...

Pedro
- Então! Sabia... Você não tem nenhuma fantasia? Nenhuminha?

Patty
- Tem aquela da mesa de sinuca, né?

Bia olha para Patty com cara de raiva.

Patty
- Ué! Tá todo mundo falando tudo aqui...

Bia
- Não, Patty. Só a Letícia estava falando. E você. Mas você preferiu terceirizar a vergonha e contar uma fantasia alheia.

Patty
- Poxa, desculpa...

Marcão
- Mas, peraí... Sinuca?

Letícia
- Hum... Eu já fiz. É bom, viu?

Marcão
- Bom mesmo é JOGAR sinuca! Alguém aqui joga? Tem um salão aqui perto...

Bia
- Não, Marcão. Agradeço. E adianto que também não estou afim de jogar: bocha, malha, dominó, palitinho, pebolim e outros clássicos do "Desporto Etílico".

Pedro
- Ah, Bia! Você não conhece o Salão do Taturana!

Bia
- Não conheço e, pelo nome, confesso que não deu vontade de conhecer...

Marcão
- Taturana é o dono do salão. E ele tem esse nome por causa do bigode. O salão é ótimo! Fica aqui pertinho, pô! Dá para ir a pé.

Patty
- Acho que sei onde é, sim. E até já joguei lá. É bom mesmo, Bia! Ai, mas eu não sei jogar não... Pode ir e só ficar olhando?

Pedro
- Queridas, não se acanhem... Quando eu jogo, é normal que os demais "apenas fiquem olhando" (faz as aspas com os dedinhos)...

Letícia
- Ei, vocês estão pensando que é um salão daqueles só com velhos pinguços? Que nada! Tem muito homem bonito por lá!

Bia
- Até que enfim, um argumento convincente.

Patty
- Vamos, então? Hoje à noite?

Bia
- Se for, tem que ser hoje, que é sábado. No resto da semana complica para mim.

Pedro
- Então vamos...

Marcão
- Vamos...

Letícia
- Vamos!!!

Bia
- E se a gente convidasse o Heraldo e o Olavo, hein?

Patty
- Ah, acho ótimo...

Pedro
- Bia, com todo respeito, mas... Você SINCERAMENTE imagina aqueles dois num salão de sinuca?

Marcão
- É, Bia...

Letícia
- Quem são esses?

Patty
- Um casal gay aqui do prédio.

Letícia
- Casal gay! Adoro!

Bia
- Qual o problema, caramba? Gay não joga sinuca! Eu acho que sim, não? Vou convidá-los. Se eles não quiserem ir, tudo bem, mas o convite eu faço, sim!

Fecha. Abre novamente no apartamento de Bia, mas agora estão lá apenas ela e o Pedro.

Pedro
- E não é que os dois toparam?

Bia
- Pois é... Como é esse salão, hein? É roubada? Tem mesmo homem bonito?

Pedro
- Bia, você sabe que, no máximo, eu posso achar um homem "simpático" ou, exagerando!, "boa pinta".

Bia
- Que machismo bobo, Pedro! Você não é todo descolado, todo moderno?

Pedro
- Sou e não sou. Gosto de modernidade, mas sem viadagem pro meu lado.

Bia
- E que tipo de homem aparece naquele salão?

Pedro
- De todo tipo. Ah, sei lá... Tipo eu, Marcão... Tem de tudo, Bia. Você tem chance de se dar bem, sim, se é isso que quer saber.

Bia
- É exatamente isso que eu quero saber.


* * *

PARTE II


Estão todos no Salão do Taturana. Muitas mesas de sinuca, muita gente se divertindo, um balcão em que Taturana serve algumas bebidas, e uma fumaceira de cigarro dos diabos.

Eles escolhem uma mesa.

Pedro
- Quem joga?

Bia
- Eu jogo essa porra!

Patty
- Que linguajar é esse, Bia?

Bia
- Estou entrando no clima do lugar, ok?

Marcão
- Eu também jogo

Heraldo
- Eu prefiro ver vocês jogarem. Me divirto mais assim.

Olavo
- Eu idem. Odeio sinuca.

Pedro
- Então aprendam com o mestre, aqui, como é que se joga esse negócio. Vamos formar as duplas? Meninos contra meninas? Como vai ser?

Patty
- Um menino e uma menina contra outro menino e outra menina! Vamos balancear!

Bia
- Eu jogo com o Marcão!

Marcão (sem esconder a tristeza, pois queria jogar com a Patty)
- Hm... Ok!

Pedro
- Tudo bem, eu jogo com a Patty. Vamos dar uma surra neles, Patty!

De fato, Pedro joga muito bem. Em poucos instantes acabou com a brincadeira. Matou todas as bolas e mal deixou a outra dupla dar suas tacadas.

Bia
- Caramba! Você é bom MESMO! Eu achei que fosse lorota!

Pedro
- Ora, ora, querida Bia... Você precisa acreditar mais no que eu digo...

Bia
- Isso nunca. Não vou tratar a exceção como se fosse regra...

Marcão
- Vamos mais uma?

Bia
- Vamos nada! Pra mim, já deu! Vamos dar uma volta, Patty?

Patty
- Ah... Acho que até jogaria mais uma

Bia (pegando Patty pelo braço)
- Nada disso!

Pedro fica na mesa enquanto as meninas andam pelo salão, até um lugar bem seguro e distante de onde eles estão.

Bia
- Olhaqui, Patrícia! Chega de ficar babando pelo Pedro, ok? Não começa a se humilhar por ele. Eu sei que você detestou a partida!

Patty
- Mas, Bia...

Bia
- Olha quanto homem tem aqui! Deixa ele te ver com algum bonitão e aí sim ele dá valor. Até porque jajá a Letícia chega.

Patty
- Você tem razão...

Ambas resolvem circular pelo salão. Enquanto isso, Taturana procura Pedro para trocar uma palavrinha.

Taturana
- Tem um otário aí, Pedrão. Cheio de grana. Vai nessa?

Pedro
- Otário, mesmo? Daquela vez tive que suar para ganhar do cara....

Taturana
- Otário, porra! O maior babaca! Tá lá, ó! Mesa sete. Até meio de fogo.

Pedro
- Vai lá, Taturas. Fala com ele. Veja se ele tá a fim de um joguinho a dinheiro, diga que eu jogo bem. Não vai falar que eu jogo mal, se não sai morte aqui.

Taturana
- Eu sei fazer a coisa, porra. Mas metade é meu.

Pedro
- Metade o caralho. Dez por cento, porra!

Taturana
- Dez por cento? Vintão. Se não, nem vou pra lá.

Pedro
- Então vinte, porra. Você é foda.

Taturana vai até a outra mesa, Olavo e Heraldo conversam animado ao lado da mesa, Pedro vai até lá e começa a brincar sozinho com as bolas, esperando a hora do "otário" aparecer.

E nada da Letícia.

Marcão, enquanto isso, vai até as meninas, que estão ao lado do balcão, olhando pra todo mundo

Marcão
- E aí? Vão ficar só de olho?

Bia
- Marcão, você sabe que te adoro, mas agora tudo que eu mais quero é que você vá pra bem longe...

Marcão
Mas...

Patty
- Estamos de olho nuns carinhas aí, Marcão. Você aqui com a gente queima um pouco o filme, né?

Marcão
- Tá bom, tá bom. Vou fazer como vocês. Pode deixar que eu saio de perto.

Bia
- Marcão, não tem mulher sobrando por aqui. Aliás, salvo nós duas, não vejo nenhuma outra. Se vier mais uma, é a Letícia. Tá mal pra você. Vai lá ver o jogo do Pedro!

Bia aponta para a mesa, no exato instante em que o "otário" e Pedro estão de mãos dadas, com Taturana os apresentando.

Taturana
- Pedro, Gaspar; Gaspar, Pedro.

Pedro
- Prazer, meu caro! Vamos jogar uma partida?

Gaspar
- Mas é claro! Tô sabendo que você é bom...

Pedro
- Eu me esforço... Mas não sou tudo isso não. Você joga há quanto tempo?

Gaspar
- Sempre joguei. Mas nunca a dinheiro. Ele - apontando para Taturana - falou que você só joga a dinheiro.

Pedro
- É verdade...

Gaspar
- Então vamos. Quanto?

Pedro
- Cem reais a partida...

Gaspar
- Ah! Ótimo! Achei que fosse bem mais. Vamos sim!

Pedro e Taturana se entreolham. Ambos estão quietos e impassíveis, mas gargalham por dentro. "O cara é MESMO um otário!", ambos pensam.

Enquanto isso, Bia e Patty são abordadas. E os dois caras são realmente bonitos.

Carinha 1
- Nossa! Não é sempre que duas garotas assim bonitas aparecem na sinuca!

Carinha 2
- Podicrê

Bia (pensando)
- Ok, são dois gatos, seria bom demais que fossem pessoas educadas. É cedo para emitir um juízo de valor, mas a maré aqui aparentemente não está pra peixe...

Patty (pensando)
- Que corpo gostoso o desse aí! Nossa, que coxa!

Carinha 1
- Como vocês chamam?

Bia e Patty
- Beatriz. Patrícia.

Carinha 2 (olhando para Patty)
- Patrícia... Gostei. Sabe, nunca conheci uma Patrícia feia...

Bia (pensando)
- Putaqueopariu! Que cara ridículo!

Patty (pensando)
- Ai, que lindo isso!

Carinha 1
- E você, Beatriz, o que faz da vida?

Bia
- Pode me chamar de Bia... Sou advogada.

Carinha 1
- Então, se me prenderem, você me solta?

Bia (pensando)
- Não! Se te prenderem eu exijo prisão perpétua!

(mas, falando)
- Sim, claro... Serei sua advogada, pode deixar.

Carinha 2
- Primeira vez aqui no salão de sinuca, Patrícia?

Patty
- Pois é! Nunca tinha vindo! Animado, né?

Ela diz isso e aparece uma imagem geral do ambiente: muita fumaça de cigarro, gente com a cara fechada, algumas mesas vazias e Pedro, lá longe, jogando com Gaspar e aparentemente muito animado.

Carinha 2
- É, eu gosto do clima!

Corta.


* * *


PARTE III

Pedro acabou de ganhar 1500 reais de Gaspar, que sai meio bravo da mesa, mas entende que foi uma derrota justa. Cumprimentam-se cordiamente e Pedro se senta ao lado de Olavo e Heraldo.

Pedro
- Viram o baile?

Heraldo
- Você sabe jogar, mesmo! Parabéns, Pedro!

Olavo
- Caramba! Você é bom de verdade! Nunca perdeu?

Pedro
- Ah, já perdi. Mas às vezes vem um desses, assim com muita grana, e acabo fazendo a limpa. Deixa eu separar a grana do Taturana. O resto é meu.

Cinco minutos depois que Gaspar sai, Taturana vai até Pedro e pega sua parte. Enquanto isso, Bia, Patty e os dois rapazes conversam animadamente. Ou quase: dos três, Bia é a única com a cara fechada.

Marcão, que não pegou ninguém, bebeu muito e voltou pra mesa de sinuca de Pedro.

Marcão
- Não tem mulher nessa porra!

Pedro
- Claro. Aqui é um salão de sinuca.

Marcão
- Porra!

Pedro
- Sentaí, Marcão! Acabei de ganhar uma grana. Só não te ofereço uma bebida porque você já deve ter feito a limpa no bar do Taturana.

Marcão
- Você sempre ganha uma grana! Eu nem sei jogar essa porra!

Heraldo
- Eu sei!

Pedro (sem conseguir esconder o sorriso)
- Como assim? Sinuca, Heraldo?

Heraldo
- Claro que sim. Jogo bem pra caramba!

Pedro
- Se você não fosse meu amigo, eu fingia que acreditava só pra ganhar mais uma grana.

Heraldo
- Não jogo a dinheiro.

Pedro
- Ah... Sabia. Quando vem com essa de que "não joga a dinheiro" é porque não sabe jogar. É ou não é, Olavo?

Olavo
- Não entendo disso não. Mas ele joga bem, sim.

Marcão
- Joga nada!

Heraldo
- Só joga a dinheiro, Pedro?

Pedro
- Não, não... Claro que não. Podemos brincar numa boa.

Heraldo
- Mas agora eu quero jogar a dinheiro!

Pedro
- Pára, Heraldo! Deixa de ser bobo...

Olavo
- Tá com medo, Pedro?

Pedro
- Medo? Então vamos. Vai apostar quanto?

Heraldo
- Cem reais, não é isso?

Pedro
- Por partida! E aí vamos aumentando nas outras - isso se você quiser recuperar o que perdeu, mas vai acabar perdendo mais.

Marcão
- Essa eu quero ver.

A partida começa. Bia e Patty agora conversam sozinhas, pois os rapazes foram embora.

Bia
- Puta merda! Que cara burro! Não dá assim!

Patty
- Ah, Bia! É balada...

Bia
- Balada? Isso aqui é um salão de sinuca!

Patty
- Então! É pior que balada! Você me chama para essa voltinha, tentando me animar, eu me empolgo e aí você corta?

Bia
- Como amiga, eu fiz o que era preciso. Primeiro, te tirei de perto do Pedro. Depois, afastei essas duas múmias de nós duas.

Patty
- Eu não queria uma coisa nem outra. Sei que você faz por bem, que gosta de mim, mas poxa...

Bia
- Poxa nada! Cantadinha de porta de quermesse, Patty!

Patty
- E a Letícia não veio. E nem vem, né? Eu poderia ter ficado lá na mesa...

Bia
- É errado você sustentar essa paixãozinha pelo Pedro! Ele não tá nem aí, Patty! Eu sei que é duro dizer isso, e pior ainda é ouvir isso, mas é melhor falar a verdade.

Patty
- É... Ah! Vamos beber?

Bia
- Agora sim!

Elas pedem uma Smirnoff Ice cada. A primeira de uma série. Ficam ali, bebendo no bar e rindo. O jogo lá na mesa continua.


* * *


Pedro e Heraldo estão em sua quinta partida. Heraldo ganhou todas. Na primeira, cem reais. Na segunda, duzentos. Na terceira, trezentos. Na quarta, quatrocentos.

Tirando a comissão do Taturana, Pedro ganhou mil e duzentos reais nesta noite, mas já perdeu mil para o Heraldo. E essa partida vale quinhentos. Se perder, sai do salão no vermelho.

Heraldo (matando a bola cinco e ganhando a partida por antecipação)
- Pois é, Pedrão, você me deve mais quinhentinho. É isso?

Pedro (muito contrariado)
- Tá certo, tá certo! Você é o Ruy Chapéu e nem falou nada...

Olavo
- Eu avisei!

Marcão
- É... Eles avisaram

Pedro
- Valeu pela força, Marcão!

Heraldo
- Você limpou aquele cara, Pedro! Não deveria agora se fazer de vítima.

Pedro
- Tá certo, tá certo...

Nesse instante, as meninas chegam até a mesa, já bem bêbadas.

Bia
- Como é que foi aí? Quem ganhou e quem perdeu?

Marcão
- Pedro ganhou uma grana de um otário aí, mas depois perdeu tudo e mais um pouco pro Heraldo.

Bia
- Hahahahahahaha! Agora eu entendi o jogo: o otário sempre perde!

Pedro
- Mulher não pode beber. O nível cai, o nível cai drasticamente...

Patty (criando coragem)
- Por falar em mulher, cadê a Letícia?

Pedro
- Me ligou há pouco, disse que não vinha pra cá. Tinha uma festa sei lá onde e sei lá com quem...

Marcão
- Ah, mas dá para saber, né? Essas festas da Lelé...

Bia
- Vamos embora?

Heraldo e Olavo (cada qual segurando um braço de Bia)
- Vamos sim, mocinha! Você bebeu demais, não? - cada um fala uma frase.

Pedro
- Vambora, vambora...

Eles saem do salão, vão a pé até o prédio, todos gargalhando. Menos Pedro, que não se conforma com essa derrota.

Pedro (pensando)
- Como é que vou arrumar quinhentão de hoje pra amanhã? Fodeu!

* * *

Cada qual vai para sua casa, Pedro e Bia estão na sala do apartamento. Toca o interfone, Bia vai atender.

Patty
- Pedro, me come!

Bia
- Patty???

Patty
- Ai! Bia?!?!?

Bia
- Graças a Jesus Cristo Nosso Senhor que eu atendi! E olha que sou atéia!

Pedro
- O que houve aí?

Bia sinaliza como se não fosse nada, e percebe que não pode falar muito com Pedro ao seu lado.

Bia
- Tô indo praí, Patty!

Bia sai, Pedro fica no apartamento. Quase um minuto depois dela sair, toca o telefone.

Pedro
- Alô!

Gustavo
- Pedrão? Tudo bem, cara? Cadê minha irmã?

Pedro
- Acabou de sair! Foi até a casa da Patrícia, uma amiga dela que mora aqui no prédio... Você tá bem?

Gustavo
- Tô sim. Tô em Viena. Mas fico só quinze dias. E o Abraham?

Pedro
- Tá aqui, fazendo borbulhas de amor à luz da lua!

Gustavo
- Que viadagem. Arruma uma "peixa" pra ele aí, porra! Fala pra minha irmã que mandei um beijo. Tudo certo com vocês dois aí?

Pedro
- Vou ter que mudar minha rotina, né? Mas tá ótimo sim.

Gustavo
- Trata de mudar mesmo! Sem putaria com minha irmã por aí, Pedrão!

Pedro
- Maravilha! Abraço, meu caro!

Gustavo
- Outro!

Bia e Patty conversam na casa desta última.

Bia
- Não pode ser assim, Patty!

Patty
- Desculpa... Tô bêbada. Não queria isso. Mas eu quero dar pra ele!

Bia
- Não quer "dar" coisa nenhuma. Talvez até queira, mas você tá é apaixonadinha. E sabe que, oferecendo sexo, ele aceita com facilidade. Depois, passa um tempo e você dá o golpe, exigindo uma maior participação na vida afetiva do cara...

Patty
- Ah, você é chata! Tudo é teoria-teoria-teoria... Blé!

Bia
- Então liga lá. Mas depois não vale vir atrás de mim chorando, ok?

Toca o interfone da casa da Patty.

Patty
- Viu só? Deve ser ele!

Bia
- Deve ser algum vizinho reclamando do barulho.

Patty vai até o interfone, que toca pela segunda vez. Ela realmente acha que pode ser o Pedro.

Patty
- Oi...

Marcão
- Patty, vou falar de uma só vez: eu amo você. Não consegui olhar para outra mulher na sinuca. Tá, não tinha outra mulher além de você e da Bia, mas a verdade é que só penso em você. Eu queria conversar...

Patty
- Mas, Marcão...

Bia
- Marcão???


CONTINUA...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

01 - EPISÓDIO PILOTO

escrito por Gravata


PARTE I
O apartamento de Pedro está escuro. Tocam a campainha. Mais e mais campainha. Batem na porta. Gritam. Pedro levanta esbaforido, seminu, com o lençol enrolado na cintura, correndo até a porta:

Pedro
- Quem é?

Bia
- Eu!

Pedro
- Eu quem?

Bia
- Eu! Bia!

Pedro
- Mas que Bia? Eu não conheço nenhuma Bia!

Bia
- Sou eu, Pedro! Abre essa porta! Olha pelo menos no olho mágico!

Pedro (sem olhar no olho mágico)
- Estou olhando!

Bia
- Não está! Dá para ver quando está! Fica mais escurinho! Abre logo!

Pedro
- Como assim dá para ver? Isso é mentira, não fica mais escurinho!

Bia
- Claro que fica! Vem cá dar uma olhada por fora!

Pedro (abrindo a porta)
- Tudo bem.

Bia
- Viu como sou eu?

Pedro
Você está diferente! Achei que viesse mais tarde, desculpa

Bia
- Tudo bem, tudo bem. Quer ver como é o negócio do olho mágico?

Pedro (saindo do apartamento)
- Claro, me mostra!

Bia (fechando a porta)
- Presta atenção...

Pedro (do lado de fora)
- Pronto! Pode olhar!

Bia (olhando pelo olho mágico)
- Vou olhar!

Pedro
- É mesmo! Ficou mais escuro!

Bia
- Não falei?

Pedro
- É mesmo, é verdade. Nunca tinha reparado nisso. E... Opa... Agora você saiu. Ficou clarinho de novo! Agora ninguém mais me engana!

Bia (se afastando da porta, indo em direção à sala)
- Ahã.

Pedro
- Eu to vendo que você não está vendo, viu? Agora, pode abrir a porta

Bia (sentando no sofá e cruzando as pernas, com cara bem cínica)
- Ahã.

Pedro
- Ei, abre a porta, Bia!

Bia (balançando as pernas)
- Ahãããããã!

Pedro
- Bia, estou só com o lençol! Por favor!

Bia (indo até a porta)
- Já vai, Pedro!

Pedro
- Por favor!!!

Bia (sem olhar pelo olho-mágico)
- Ahá! Estou te olhando do olho-mágico!

Pedro
- Então abre e... Peraí! Não está não! Está clarinho!

Bia
- É, ficou bom nisso! Parabéns

Pedro
- Abre por favor!

Bia (dá voltas com a chave, mas a porta não abre)
- Tudo bem, vou abrir...

Pedro
- O que está havendo aí? Está tentando abrir?

Bia
- Não. Estou criando um novo tipo de percussão para o Hermeto Paschoal. Claro que estou! Mas a chave parece enguiçada.

Pedro
- Ah, não brinca... Por favor. Só faltava essa

Bia (abrindo a porta, dando risada)
- Só faltava mesmo!

Pedro (entrando no apartamento)
- Ufa! Escapei de um vexame!

Bia
- E de um clichê! Ia ficar pra fora de casa, só de cueca...

Pedro
- Que cueca?

Bia (tapando os olhos)
- Você tem três segundos para colocar uma roupa decente!

Fecha a cena. Abre com os dois sentados na sala, um em cada sofá.

Bia
- Meu irmão então não avisou que eu viria?

Pedro
- Não falou comigo não. Nunca imaginaria...

Bia
- Ele disse que deixou recado na secretária eletrônica

Pedro
- Como? Mas não tenho celular

Bia
- Na secretária do telefone daqui do apartamento!

Pedro
- Que secretária? Do apartamento? Como assim? Não temos isso!!!

Bia caminha até o aparelho de telefone. Aperta um botão. Os recados são ouvidos:

(recado)
- Fala, Pedrão! Vai todo mundo pra casa do Carlinhos, lá em Ubatuba! É uma praia mais isolada, o reveillon lá nem é lotado!

Pedro (apontando para o telefone, com cara de espanto)
- O que é isso?

Bia
- É uma fritadeira elétrica.

Pedro
– Sério, o que é isso?

Bia
Bem vindo ao mundo maravilhoso da SECRETÁRIA ELETRÔNICA QUE VOCÊ TEM NESTE APARTAMENTO DESDE O ANO DE 1999! Vamos ouvir os outros recados.

(recado)
- Oi, Pê... Aqui é a Lelê! Estou chegando jajá!

Pedro se espanta, Bia faz cara de reprovação.

(recado)
Fala, cara! Tudo bem? Minha irmã está chegando aí, ok? Agora não posso falar muito porque estou aqui no Aeroporto de Roma, depois ligo com mais calma. Abraço! E cuida do Abraham!

Pedro bate com a mão na testa, Bia o encara balançando a cabeça.

(recado)
- Olá, gostaria de avisar que você acaba de ganhar um curso de informática totalmente gratuito e...

Bia interrompe a gravação.

Pedro
– Peraí, Bia! Ganhei um curso de informática e eu nem sabia...

Bia
– Ganhou nada, Pedro! Você “ganha” o curso e paga somente uns quinhentos reais de material! E que negócio é esse de Abraham?

Pedro
– Um peixe.

Bia
– Que peixe?

Pedro
– Tínhamos um peixe aqui.

Bia
– Cadê o aquário?

Pedro
– TÍNHAMOS um peixe e TAMBÉM um aquário.

Bia
– Por acaso meu irmão SABE que o peixe não ta vivo?

Pedro
– Não, não sabe. Depois eu aviso.

Bia
– Deveria falar logo! Ele era muito apegado ao peixe? Eu nunca soube desse Abraham...

Pedro
– É que morreu faz tempo. Não sei como começar a falar. Vou falar o quê? Que ele subiu no telhado?

Bia
– Sei lá, só sei que não vou mentir.

Pedro
– Então tá, quando ele perguntar você fala que o Abraham morreu. Mas é que não acho legal ver seu irmão triste por uma bobeira dessa.

Bia
– Tudo bem, depois resolvemos isso.

Pedro
– Claro, claro. E então, Bia, vai ficar quanto tempo por aqui?

Bia
– Ainda não sei...

Pedro
– Pode passar o dia, dormir aqui... Afinal, você também é dona do apê! Seu irmão e eu compramos, mas ele agora trabalha no exterior. O quarto fica vazio.

Bia
– É, ele comentou. E agora com o curso e o trabalho, preciso mesmo ficar por perto. Além do quê, já não agüentava mais morar com meus pais...

Pedro
– Sim, claro... (pausa) Opa! Como?!?! Morar? Morar??? Não vai mais morar com eles e vai morar aqui?

Bia
– Exatamente. Aqui.

Pedro
– Mas, Bia... Eu sou homem.

Bia
– Não me lembro de ter iniciado uma discussão sobre a sua masculinidade. Eu vou morar aqui porque este apartamento é meu. Aliás, você mesmo lembrou, o que nos poupa boas horas de eventual discussão.

Pedro
– Não, nada contra, claro. É que eu tenho meus hábitos, meu jeito...

Bia
– Eu tenho os meus também, a gente se acostuma. Obviamente, eu NÃO ME ACOSTUMO com quem anda pelado pela casa coberto apenas por um lençol. Dos romanos até os dias de hoje as roupas evoluíram bastante.

Pedro
– E cadê suas coisas?

Bia
– Estão lá embaixo. Vê se me ajuda a trazer tudo.


* * *


PARTE II
Estão sentados no sofá, Bia ao lado de Pedro e Olavo ao lado de Heraldo.

Bia
– Gente, muito obrigada. Conseguimos carregar tudo! Valeu, mesmo!

Olavo e Heraldo sinalizam com as mãos e a cabeça, refutando o agradecimento, humildemente.

Pedro
– Que é isso, Bia! Não precisa agradecer!

Bia
- Pedro, você está incluído no agradecimento simplesmente porque ficaria muito chato eu dizer “obrigado ao Olavo, obrigado ao Heraldo, e NADA para o Pedro” (à medida que menciona os nomes, ela aponta para a pessoa citada)

Olavo e Heraldo riem.

Pedro
– Só porque não carreguei a parte mais pesada?

Olavo
– Ah, Bia! O Pedro ajudou sim!

Heraldo
– Claro que sim!

Bia
– Deixa isso para lá. Mas então vocês são...

Heraldo e Olavo (em uníssono, dando as mãos)
– Casados!

Pedro
– Achei que fossem só namorados...

Heraldo
– Não, não... Somos casados. Vivemos juntos, somos um casal, temos até contrato firmado já.

Bia
– Mas, desculpa a pergunta... Bom, sei lá... Posso perguntar?

Olavo
– É claro que sim! Fique à vontade...

Bia
– Vocês são casados, então quem é quem na relação? É difícil dizer isso, não sei mesmo como perguntar...

Heraldo
– Quem é o homem e quem é a mulher?

Bia (mostrando-se envergonhada)
– Isso!

Heraldo
– Os dois são “o homem”.

Olavo
– Se um fosse o homem e outro a mulher, seríamos hétero. Como somos homens e gostamos de homem, os dois são “o homem”.

Pedro
– Eu achava que o Heraldo fosse a mulher...

Bia
– Pedro!

Pedro (gesticulando como se não ligasse para a gafe)
– Ué!

Heraldo
– As pessoas geralmente acham isso, que um é a mulher, outro o homem, como nos casais de lésbicas...

Pedro
– Ah, vá... Tem umas que são mais homens do que eu!

Bia
– Isso não é vantagem alguma.

Olavo
– Há casos e casos. Claro que há homossexuais masculinos efeminados, e homossexuais femininas masculinizadas. Não dá para simplesmente se aplicar uma regra geral a todos os casos.

Heraldo
– E os bissexuais...

Bia
– Agora ta na moda. Principalmente as menininhas que saem por aí beijando na boca. Uma festa.

Pedro
– E eu nunca estou por perto.

Toca o celular da Bia.

Bia
– Alô! Patty?

(...)

Bia
– Claro, claro! Cheguei agora mesmo!

(...)

Bia
– Venha para cá, então!

(...)

Bia
– Isso mesmo, sétimo andar!

(...)

Bia
– Ok, eu espero.

Olavo
– Você vai morar aqui, então?

Bia
– Vou sim, serei colega do Pedro.

Heraldo
– Precisamos combinar um jantar de boas vindas! Teremos o maior prazer em convida-la para provar um jantar lá em casa...

Bia
– Fico grata! Eu irei sim!

Olavo
– Bom, mas agora precisamos ir. Temos que levar o Sancho para passear.

Bia
– Cachorro, gato?

Heraldo (olhando sério para ela)
– Não, é meu avô.

Bia
– Desculpa...

Olavo
– Que nada, é nosso cachorro!

Eles se vão.

Pedro
– Bia, preciso sair. Você fica?

Bia
– Claro, acabei de chegar.

Pedro
– Então fique com a chave. Aliás, poderíamos bolar ume esconderijo, né? Tem um vãozinho lá perto da caixa de força, que já vi esconderem de tudo por ali e ninguém nunca pegou. De repente, é só colocar a chave em alguma embalagem plástica...

Bia
– Ou então fazer uma cópia no chaveiro.

Pedro
– Boa idéia! Vou indo, volto jajá.

Pedro sai, Bia fica no sofá.


* * *


PARTE III
Bia no apartamento, toca a campainha.

Bia (sem sair do sofá)
– Quem é?

Patty (já entrando, deixando um bolo no balcão da cozinha)
– É a Patty, Bia!

Bia e Patty (se abraçando)
– Oieeeeee!!!!!!!!!!

Patty
- Não acredito! Vai morar aqui comigo!!!!

Bia
– Contigo? Antes fosse... Vou morar com o Pedro. Conhece?

Patty
– Claro!!! Quer dizer, nunca conversamos... Mas ele é um gato, né? Ah... Nem sabe que eu existo...

Bia
– Mas agora vai saber! Você é minha amiga, ele mora comigo...

Patty
– Mas você e ele...?

Bia
– Nós dois? Que nada! Meu irmão morava aqui com ele, o apartamento é dos dois. Como estou fazendo mestrado e trabalho aqui perto, então fica muito mais fácil do que morar no interior.

Patty
– Sem dúvida. Mas vocês dois não...

Bia
– Nem pensar! Caminho livre, amiga. Todo seu...

Patty
– Todo meu não, né?

Troca de cena. Abre para o apartamento do Marcão, ele e Pedro sentados na sala, conversando.

Pedro – Então, cara! Agora complicou! Ela veio morar em casa, e comigo, não a via faz uns dez anos, sei lá...

Marcão
– E sem avisar?

Pedro
– Sem avisar! Bom, tinha um recado, mas eu nem sabia que tinha secretária eletrônica em casa...

Marcão
– Como não sabia? Eu já deixei recado pra car... Ah! Então é isso... Mas e aí? Tem gente que não vai gostar nada nada da novidade, hein?

Pedro
– Nem me fale... Nem me fale! Preciso combinar com a Bia, falar que ela é minha prima, irmã, sei lá... Isso de ser “irmã do amigo” mais atrapalha do que ajuda.

Marcão
– Ela tá gata?

Pedro
– Ah, tá igual... Vamos até lá?

Marcão
– Opa! Vambora! Quem sabe não encontro aquela gostosa do décimo andar... Patrícia! - ele pronuncia o nome bem lentamente.

Pedro
– Essa faz tempo que não vejo. Também, pelos meus horários, só encontro com gente que vai passear com o cachorrinho de madrugada.

Marcão
– Então vamos!

Os dois saem do apartamento.

Fecha a cena, abre para o apartamento de Pedro e Bia.

Bia
– Pois é... Acho que vou ficar pra titia...

Patty
– Somos duas.

Bia
– Ah! Hoje já conheci o casalzinho do prédio...

Patty
– O porteiro e a Matilde, da limpeza? Já soube dos dois? Ela agora está encerrando antes das três e os dois vão para o ninhozinho do amor, dizem que é lá na sala das máquinas, na cobertura...

Bia
– Que Matilde? Nem reparei no porteiro...

Patty
– Ih...

Bia
– São os dois carinhas... Heraldo e Olavo!

Patty
– Eles são muito legais! Você já os conhecia?

Bia
– Não, não, eles me ajudaram a carregar as coisas...

Patty
– São uns amores...

Bia
– São mesmo. Eu ainda cometi um fora, porque fui perguntar quem é o homem e quem é a mulher entre eles...

Patty
– Nem precisava, né? O homem é o Heraldo!

Bia
– O Pedro disse o contrário!

Patty
– Sei não...

Bia
– Bobagem! Eles me explicaram e fiquei com a cara no chão... Não tem essa de ser homem ou mulher. Eles são homens e gostam de homem, logo, não tem essa de um ser homem e outro ser mulher. São dois caras bacanas, que são gays, e vivem juntos...

Pedro e Marcão entram no apartamento durante essa última frase.

Pedro
– Ia perguntar se você falava de mim, mas acho de extrema conveniência guardar essa pergunta comigo.

Marcão
– Mas, se algum dia perguntarem algo de nós dois, vamos deixar estabelecido que a eventual mulher é o Pedro.

Bia (levantando-se do sofá)
– Marcão!?!?!?!?!

Os dois se abraçam.

Bia
– O que você tá fazendo aqui?

Marcão
– Moro no prédio da frente!

Pedro
– Resolvemos fazer uma surpresa para você!

Bia
– Adorei a surpresa! Acabo de me mudar e já estou em casa! Ah, gente, essa é a Patty!

Pedro (imitando o jeito de Marcão falar, e olhando para ele)

– Patrícia!

Marcão
– Sim, Pedro, Patrícia. Ou achou que fosse “Patty” viesse de Agnalda?

Bia
– Vocês já se conhecem?

Pedro
– Ah, sim, do elevador, conversamos bem pouco...

Patty (olhando para Pedro com cara bem apaixonada)
– É, bem pouco...

Marcão (olhando para ela, apaixonado, e para Pedro, confuso)
– Muito pouco! Muito pouco!

Eles se cumprimentam, trocam beijos. Todos sentam no sofá.

Bia
– Estudei com a Patty na Faculdade...

Patty
– Mas eu larguei o curso de Direito. Fui fazer arquitetura, que é mais minha praia...

Pedro
– Eu também fiz arquitetura!

Patty
– É mesmo? Achei que fosse jornalismo...

Pedro
– E foi!

Marcão
– Ele já fez praticamente todas as Faculdades... Não até o fim, claro.

Bia
– Como assim? Quais cursos?

Pedro
– O primeiro foi arquitetura. Depois publicidade. E aí História, Letras, Filosofia e Jornalismo.

Patty
– Nossa...

Bia
– Não sabia disso...

Marcão
– Quando ele não mostra as notas, parece até que é mais um gênio que simplesmente não encontra uma vocação...

Pedro
– Enfim, é isso. Vamos falar um pouco mais de vocês. Ou então, como fazem as pessoas saudáveis, podemos falar de temas úteis e filosóficos, como por exemplo fofocas sobre a vida alheia...

Bia
– Não, vamos fazer fofoca sobre nós mesmos...

Patty
– Por que será que essa idéia não me anima?

Marcão
– Qual a graça de fazer fococa de quem está por perto?

Bia
– É uma coisa mais sincera, na verdade nem é fofoca.

Pedro
– E, não sendo fofoca, não tem graça.

Toca a campainha.

(voz feminina abafada)
– Pedro, abre, sou eu!

Marcão, Bia e Patty se olham.

Bia
– "Sou eu"? (repetindo o que disse a "moça da porta", com ar irônico)

Pedro (gritando e ao mesmo tempo gesticulando para Bia, com o dedo na boca, para ela ficar quieta)
– Já vou! Já vou!

Pedro abre a porta e a moça entra. Eles se beijam freneticamente. Patty olha para Bia, Marcão olha para Patty, Bia olha para o casal.

Pedro (abraçando a moça)
– Gente, essa é a Letícia!


CONTINUA...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

APRESENTAÇÃO

O "Blog Seriado" contará algumas histórias, todas elas divididas em capítulos, e todos eles publicados semanalmente. Há toda uma equipe responsável por isso, bem como um pobre-coitado que fará a redação final para que as coisas tenham uma cara mais ou menos uniforme.

"Edifício Maria Ubirajara" é o nome da primeira 'série' deste blog. É uma "comédia de costumes"; ou seja, estilo bem manjadinho. Em princípio, publicaremos uns dez episódios. Talvez dure mais, vamos ver a "aceitação".

Caso fique muito ruim, damos um fim e começamos outra coisa, com outro tema etc.

É provável que não tenhamos muitos leitores, mas faremos o possível para que a coisa não se torne muuuito chata. Piadinhas e chistes jocosos serão inseridos a fim de que o leitor não morra de tédio.

Vejamos um pouco de cada personagem do "Edifício Maria Ubirajara":

O Edifício
É um "predinho antigo" de São Paulo, na Vila Madalena. Seus moradores se dividem entre "jovens descoladinhos" e alguns outros "da antiga" (como o Síndico).

Pedro
Rapaz muito inteligente, mas altamente relaxado: já fez umas 30 faculdades e nunca terminou qualquer uma delas. Tem por volta de 35 anos e mora sozinho. O apê é também de seu amigo Gustavo, que atualmente mora no exterior. Pedro é mulherengo, dorme tarde e acorda tarde, e bebe muito.

Bia
Irmã de Gustavo, com aproximadamente 30 anos, que chega para morar com Pedro, por conta de seu mestrado. Os conflitos dessa "vida a dois" são a base do seriado. Bia é sarcástica, mal-humorada e, embora seja muito bonita, não tem uma vida amorosa/sexual das mais agitadas. Ela e Pedro não formam par romântico.

Patrícia
Também mora no prédio e é amiga de Bia dos tempos da Faculdade. Ela tem um amor platônico por Pedro - e ao longo dos episódios fará o possível para que deixe de ser platônico.

Marcos
Mora no prédio da frente e é amigão de Pedro, da época do colégio. Ele é apaixonado pela Patrícia. Obviamente, também estudou com Gustavo e conhece a Bia. Marcos é um sujeito pouco refinado e meio "molecão".

Olavo e Heraldo
Casal gay que mora no prédio. Bia fica amiga dos dois logo no dia em que chega. O casal não é estereotipado, como acontece na TV e demais produções. Eles são totalmente normais, bacanas, inteligentes e bem sucedidos. Ou seja, são o "estereótipo anti-estereótipo" (como o casal gay de "Beleza Americana"). Ambos têm por volta de 45 anos.

Gustavo
É o irmão de Bia, que mora no exterior. Ele telefona dos mais variados países. Curiosa e coincidentemente, Bia nunca está em casa quando ele liga. Ou, quando está, não consegue atender.

Garotas do Pedro
São várias, não dá para dizer aqui todos os nomes. Talvez, no decorrer do seriado, alguma se torne mais marcante e apareça mais vezes. Isso ainda não está definido (aliás, quase nada está definido...).

Síndico
É um homem bem velho e chato, cujo nome nunca é lembrado - e cada hora ele é chamado de um jeito diferente. O síndico é inimigo mortal de Pedro. Bia tentará, a todo custo, estabelecer uma relação diplomática, principalmente para evitar as multas constantes.

Porteiro
Nos filmes e telenovelas, os edifícios têm apenas um porteiro. Nesta nossa série, obedecendo às regras da lógica, haverá vários porteiros (um para cada turno, além do 'folguista'). Desse modo, nenhum deles terá nome, para facilitar a vida do leitor (e a nossa, principalmente).

Enfim...
Na semana que vem, publicamos o primeiro episódio. E assim por diante: toda sexta, algo novo por aqui. E vamo que vamo!

Sejam todos bem vindos!